01/03/2012

UNESP- 36 anos depois...


Quando a Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp)
foi criada, em 1976, poucos acreditavam que daria certo. A organização de
uma instituição universitária digna do nome a partir de faculdades isoladas
distribuídas por 15 cidades do interior paulista parecia desafio impossível
de ser vencido. Fugia das tradições acadêmicas brasileiras e não tinha
modelos para seguir. Além do mais, o clima geral do País - estávamos no auge
da ditadura militar - hostilizava a vida intelectual, esteio da organização
acadêmica que se pretendia.

Os primeiros anos foram difíceis, marcados por muitas arbitrariedades.
Havia, porém, uma base de onde partir, fornecida pelas faculdades que se
reuniam na nova estrutura e estavam solidamente estabelecidas. A ideia-força
era consolidar o que se tinha para então interiorizar a universidade. O
esforço confundia-se com a expectativa de democratização do País, ganhando
fôlego e impulso com ela.

O primeiro reitor organicamente vinculado à comunidade acadêmica, Jorge
Nagle, foi escolhido no momento (1984-1985) em que o regime militar se
decompunha, às portas da Nova República. Foi nesses anos emblemáticos que a
Unesp ganhou seu primeiro sopro de identidade e começou a se reconhecer como
tendo direito de existência, sem sentimento de inferioridade em relação a
outras universidades.

Passados 36 anos, hoje a Unesp é uma universidade com todas as letras.
Passou a ser vista com respeito dentro e fora do País. Está implantada em 23
cidades, incluída a capital do Estado. E exibe números impressionantes.

Seus 3,5 mil professores compõem com os 7.153 funcionários uma plataforma
consistente para as atividades de ensino, pesquisa e extensão de serviços. A
Unesp oferece 171 opções de cursos de graduação, que formam, por ano, 5,6
mil novos profissionais e agregam mais de 35 mil alunos. Na pós-graduação,
mais de 10 mil alunos estudam em 117 mestrados e 93 doutorados acadêmicos.
Milhares frequentam cursos de especialização. Os inscritos no vestibular
passaram de 9.700, em 1976, para 89.550, pois o número de vagas oferecidas
aumentou de 2.800 para 8 mil.
Nossos docentes tem acesso a vários países do mundo para qualificações em Doutorados, Pós-Doutorados etc.

A Unesp está entre as instituições que mais produzem ciência no Brasil, em
todas as áreas. Seus projetos de extensão universitária incluem apoio à
gestão municipal, orientação a pequenos empresários, atendimento médico e
odontológico, formação de professores e previsão do tempo para agricultores.

Sua infraestrutura inclui 1.900 laboratórios e 30 bibliotecas, com 2,6
milhões de livros, além de museus, biotérios, clínicas de psicologia e
fisioterapia, hospitais veterinários e cinco fazendas experimentais,
perfazendo uma área total de 62,8 milhões de m2. Conta ainda com o
importante Hospital de Clínicas de Botucatu, com 462 leitos, e administra o
Hospital Estadual Bauru, com outros 318 leitos.

A Unesp deixou de ser vista com desconfiança. Em 2010, figurou em 6.º lugar
no Ranking Ibero-Americano SIR. Ao longo de 2011, avançou 116 posições no
Webometrics Ranking of World Universities, passando a ocupar a 122.ª posição
no mundo e a 4.ª na América Latina. Por mais que tais rankings sejam
polêmicos e não devam ser lidos de forma produtivista, deixando de lado a
qualidade do que se faz, alguma coisa eles indicam.

Como pôde a Unesp dar esse salto? Houve, antes de tudo, a longa série de
reitores comprometidos com a construção de uma universidade que se dedicasse
à pesquisa sem descuidar do ensino e fizesse de sua distribuição espacial um
fator de adensamento estratégico no território paulista. Isso possibilitou a
fixação de um padrão de gestão e facilitou a incorporação da ideia de
autonomia não como questão financeira, mas, sim, como liberdade de fazer
escolhas e tomar decisões - autonomia diante do Estado, dos dogmas, dos
interesses particulares e das pressões locais.

Mas nada disso teria proliferado se professores e servidores técnicos não
tivessem demonstrado determinação. Quem trabalha na Unesp sabe como é forte
o preconceito contra as "faculdades do interior" e como pesa a atração dos
grandes centros. Houve um momento em que a Unesp parecia ser uma espécie de
trampolim para a USP. Alguns docentes fizeram essa trajetória, que nada tem
de condenável. A maioria, no entanto, permaneceu nos câmpus, convertendo-os
em ótimos lugares para produzir ciência e ensinar. São eles o maior
patrimônio da Unesp.

Hoje, imersa numa fase de sucesso, a Unesp precisa permanecer interpretando
com rigor o mundo e as pessoas que a cercam. Há problemas e desafios novos a
exigir respostas novas, tanto no âmbito da gestão quanto do ensino e da
pesquisa. Muitos deles são de natureza ética e política. Como ensinar, como
ligar a formação acadêmica ao mercado, como fazer ciência de ponta sem
deixar de lado a ciência aplicada? O que fazer com as tecnologias da
informação e as possibilidades de ensino a distância? Qual o papel dos
professores na direção da universidade? Não há consensos consistentes a esse
respeito. Dá-se o mesmo com inúmeras outras questões.

O vitorioso projeto da Unesp tem tudo para seguir em frente. Sua
continuidade depende basicamente da capacidade que a comunidade acadêmica
(os professores, sobretudo) tiver de fortalecer os pactos internos e o
diálogo institucionalizado. Daqui para a frente, problemas e desafios
tenderão a ser sempre mais complicados. Exigirão, por isso mesmo, doses
adicionais de entendimento e articulação, para que interesses e modos de
pensar particulares continuem a se manifestar sem competir entre si de modo
improdutivo. Esse é certamente o melhor recurso para que o planejamento
institucional possa ser feito com os olhos no longo prazo e nas necessidades
sociais.
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