23/02/2012

Baixo investimento pode estar por trás de tragédia com trem





Feridos foram espalhados no chão da estação Once para serem atendidos; as causas do acidente seguem desconhecidas. Foto: Reuters


Feridos foram espalhados no chão da estação Once para serem atendidos; as causas do acidente seguem 
desconhecidas
Foto: Reuters


MARCIA CARMO
Da BBC Brasil
Os baixos investimentos em transporte público na capital Argentina podem estar por trás da tragédia com o trem da empresa TBA (Trens de Buenos Aires), na quarta-feira, segundo especialistas e sindicalistas ferroviários no país.
O acidente deixou 50 mortos e quase 700 feridos, depois que o trem bateu na plataforma da movimentada estação do bairro de Onze, em Buenos Aires.
O engenheiro argentino Andrés Fingeret, diretor do Instituto de Políticas para o Transporte e o Desenvolvimento (ITDP), disse à BBC Brasil que os países da América Latina deixaram o transporte público em segundo plano, dando prioridade aos carros e à infraestrutura ligada a eles, como estradas, sem dar a mesma atenção aos trens, por exemplo.

Para ele, a "cultura do carro faz com que as autoridades e os investimentos estejam no lugar errado". O acidente ocorreu no momento em que é discutida a redução ou eliminação dos subsídios do governo federal aos transportes públicos e outros setores da economia.
Um estudo realizado pelos especialistas em infraestrutura Lucio Castro e Paula Szenkman, do Centro de Implementação de Políticas Públicas para Equidade e Crescimento Econômico (CIPPEC), de Buenos Aires, indicou que as empresas de transporte público são hoje dependentes destes recursos do Estado, mas que, mesmo com este dinheiro, não houve melhoria nos serviços.
"A partir de 2003 (quando surgiram os subsídios), aumentou a quantidade de passageiros e caiu a oferta de assentos no sistema de transporte público. Desde então, dentro do sistema de transporte público, o setor que menos investimentos recebeu foi o ferroviário e o que mais recebeu foi o das estradas", afirmou Castro.
Manutenção e renovação
Entre os opositores ao governo, a principal causa apontada para o acidente também foi a falta de investimentos. "Os trens usados por milhões de argentinos são, cotidianamente, território de abandono e de falta de investimento", disse o senador da oposição Ernesto Sanz, da União Cívica Radical (UCR).
Num comunicado, a Central de Trabalhadores Argentinos (CTA) disse que o acidente não ocorreu "por acaso", mas por "falta de controle e de investimentos".
O ex-diretor nacional de Transporte Ferroviário da Argentina Juan Alberto Roccatagliata diz que a situação da rede na zona metropolitana de Buenos Aires ainda é melhor que em outras regiões do país.
"A rede ferroviária em nível nacional é muito antiga e necessita de uma renovação quase total, enquanto na região metropolitana a situação é melhor. Houve renovações, ainda que não tenham sido suficientes", disse ele.
"Essas são coisas que acontecem até no primeiro mundo, mas certamente há um déficit de planejamento e execução, porque se são tomadas as precauções necessárias se reduz a probabilidade de haver esses acidentes."
Já Pablo Martorelli, presidente do Instituto Nacional Ferroviário da Argentina, disse que não "é preciso exagerar, o trem continua sendo um meio de transporte seguro, no qual, às vezes, acontecem acidentes". Ainda assim, ele reconheceu que algumas linhas têm uma manutenção "pobre e deficiente".
Superlotação
Logo após a tragédia, sobreviventes contaram, diante das câmeras de televisão, que o trem estava lotado, tinha algumas portas abertas, e não teria conseguido frear ao chegar à plataforma, na estação final do percurso.
Os passageiros de trem na região metropolitana da capital argentina fazem queixas frequentes sobre as condições que enfrentam durante as viagens. Devido à superlotação, algumas pessoas ficam penduradas do lado de fora dos vagões e chegam a viajar em cima dos trens.
O secretário de Transportes, Juan Pablo Schiavi, disse que as causas do acidente ainda são "uma incógnita". "O maquinista tem 28 anos e tinha assumido o controle da viagem apenas algumas estações antes. O trem passou por uma revisão na véspera e estaria em boas condições. Vamos esperar a investigação da justiça", disse.
Segundo Schiavi, "um trem no horário mais cheio transporta cerca de 2,5 mil passageiros. Neste caso (no momento do acidente), havia algo entre 1,2 e 1,5 mil passageiros". De acordo com dados oficiais, a linha Sarmiento, onde ocorreu o acidente, transporta cerca de 300 mil passageiros diariamente. No horário de maior movimento, há um trem a cada oito minutos.
O acidente de quarta-feira foi o terceiro mais grave da história argentina e o sétimo em um ano, segundo sindicalistas ferroviários. Em setembro passado, 11 pessoas morreram na colisão entre um ônibus e um trem, na mesma linha, em um bairro da periferia de Buenos Aires.
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